365 motivos para amar Salvador

29 de março – Soteropolitano de Alagados

Por Carol Andrade

Eduardo Tavares nos guiou nos Alagados (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

Eduardo Tavares nos guiou nos Alagados (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

No dia em que Salvador faz aniversário (viva!), eu vou confessar uma coisa, esse é o texto mais difícil que já escrevi por aqui, afinal a região dos Alagados foi o lugar mais emocionante que já visitei na vida. Eu e Luana fomos guiadas por Eduardo Tavares, fotógrafo e proeiro, que nasceu nas palafitas, se criou na região e hoje não vive mais lá, mas continua morando na Cidade Baixa.

Marcamos o encontro com Eduardo na Igreja do Bonfim e de lá seguimos sua bicicleta até as palafitas. O lugar fica entre o Subúrbio e a Ribeira. Assim como outros tantos bairros da cidade, o mar é a referência principal dos moradores. E foi o mar que separou os Alagados do Lobato. Eduardo contou que ainda existem uma média de 200 palafitas e esse local, por não haver corrente marítima, é chamado de maré.

Os moradores da região (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

Os moradores da região (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

Ao chegar, o visual foi extremamente impactante. E o céu azul cheio de nuvens de algodão contrastava com as cores sóbrias da maré e das casas. O cheiro também era forte, desconfortável a princípio, mas em pouco tempo o nariz se acostumou.

Eduardo é conhecido como Rasta e amigo dos moradores. As crianças o chamam de Tio da Foto Alegria. O apelido surgiu de um projeto que ele promove há cinco anos no mês das crianças, em outubro, na região. Trata-se de uma oficina de fotografia. Eduardo dá uma câmera para a criançada e elas ficam livres para fotografar o que acham legal.

As crianças dos Alagados (Foto: Luana Amaral/ 3665 Salvador)

As crianças dos Alagados (Foto: Luana Amaral/ 3665 Salvador)

Das coisas mais impactantes que eu e Luana percebemos, a maior foi a receptividade dos moradores. Veja bem, trata-se de um lugar que estampa as páginas de polícia nos jornais, onde a pobreza é escancarada, mas ao contrário do que se pode imaginar, as pessoas te recebem com carinho e, na melhor oportunidade, te contam toda a história da sua vida.

A impressão é de que ali não há segredos, nem vergonha, nem constrangimento. E para mim, eles são os habitantes mais genuinamente soteropolitanos da cidade, por isso escolhi postar isso justo hoje! São todos os sentimentos juntos e misturados, mas o lado bom ainda está evidente, estampado no rosto.

Foto: Luana Amaral/ 365 Salvador

Foto: Luana Amaral/ 365 Salvador

Eduardo contou que o melhor de Alagados são as pessoas e a gente concorda. Mas também acho que o lugar influenciou essa força de vida e a união dos moradores. “É um trabalho de equipe, uma comunidade mesmo”, disse Eduardo.

Na casa de Dona Edinalva Fortunato moram 10 pessoas. E cabe todo mundo numa boa?, eu perguntei. “Dá e sobra. Pequena vai ser essa casa que o governo promete pra gente. Lá eu não sei como vou fazer”, explicou. Ela estava referindo-se ao projeto Minha Casa, Minha Vida.

A gente bateu na casa dela por acaso, o funk carioca ressoava às alturas enquanto as filhas de Dona Edinalva criavam uma coreografia. Mais adiante, um grupo de jovens batiam papo na famosa ponte. Tudo liberado e entre amigos.

Cigarro, bebida, droga e conversa fiada: tem em qualquer lugar, em qualquer canto da cidade, mas nunca pareceu tão natural. E vocês se divertem onde? “A gente vai para a Ribeira, na The Best Beach”.  E estudam por aqui? “Estudo aqui perto, trabalho em uma lava-jato.” Mercado é por ali, posto de saúde também é na região. E bem perto, lojinhas de roupas e miudezas movimentavam o domingo no bairro.

Foto: Luana Amaral/ 365 Salvador

Foto: Luana Amaral/ 365 Salvador

Sem frescura, alguns se atiram na maré, outros não se arriscam. Os filhos de Dona Edinalva foram proibidos de se jogar na água. E ela foi contando sem rodeios que ali tem lixo, fezes, rato, mas que tem um filho “gaiato” que de vez em quando passa por cima das suas regras de mãe. “Fazer o quê?”, perguntou ela que nasceu em Feira de Santana e mora há 23 anos por ali.

As crianças foram um detalhe a parte. Soltas nas ruelas do lugar, brincavam, cantavam, dançavam entre nós e ainda tinha disposição para pedir fotos. “Faz uma foto, tia!”. Acostumadas com o cliques, por conta do Foto Alegria, chegaram a falar do tradicional pirulito que Eduardo dava junto com as fotos reveladas no projeto. “Hoje vai ter pirulito?”, perguntou uma.

Por mais estranhas que fossemos naquele lugar, o clima era de total familiaridade. Foram tantas descobertas e tantas histórias, que as lembranças ficarão nítidas na memória até a próxima visita, que não deve demorar muito.

Conversa fiada na ponte (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

Conversa fiada na ponte (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

Depois que a gente conhece, é quase impossível fechar os olhos para este lugar. Está tudo exposto mexendo com os nossos sentidos. E, quando nos despedimos de Eduardo, ele encerrou o papo dizendo que essas pessoas precisam de lazer, cultura, carinho… vai muito além da infra-estrutura, tem a ver com humanidade.

* Com mais uma semana temática, a ideia dessa vez é homenagear aqueles que fazem essa cidade ser o que ela é: os soteropolitanos. Esse especial está dentro das comemorações de aniversário de Salvador, que completa 464 anos hoje, no dia 29 de março. Até domingo (31), vamos apresentar sete bairros sob a visão e a rotina de um morador.

motivo #88

This entry was written by carolangom and published on March 29, 2013 at 4:00 pm. It’s filed under Especial Soteropolitano and tagged , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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