365 motivos para amar Salvador

4 de julho – jeito de falar soteropolitano

Por Carol Andrade
Crônica de Marcelo Torres*

Foto: Mais Um Filmes/Reprodução/Facebook

Foto: Mais Um Filmes/Reprodução/Facebook

Tem vezes que eu me pego ouvindo uma conversa no ônibus, ou na fila, e parece surreal. São tantas expressões e tanta criatividade para lidar com algumas situações que até quem mora aqui há anos ainda estranha. É muita peculiaridade no jeito de falar. Claro, isso tem em todos os cantos do mundo e isso faz de cada cidade um lugar único.

Para quem é da terra, esse jeito de falar passa despercebido e há quem ache feio e tenha vergonha (é sério!). Aqui no blog a gente acha que esse é um dos maiores motivos para amar esta terra, dos ‘porras’ às ‘piriguetes’, do ‘na moral’ ao ‘buzu’, a gente pode até nem notar, mas o baianês é maravilhoso e riquíssimo. No vídeo ‘Guerra de Flanelinhas’, da produtora Mais Um Filmes, dá para entender essa linguística soteropolitana (veja o vídeo na aba more).

E foi assim, meio por acaso, que me deparei com uma crônica sobre ‘ser baiano’ de Marcelo Torres. Não resisti e pedi ao autor para publicar o texto no blog, afinal boa parte do que ele diz é muito mais sobre um ‘soteropolitanês’. Afinal tudo isso faz parte do cotidiano da capital baiana. Confira o texto (para ler na íntegra clique na aba more):

“Baiano que é baiano…

Pois é, todo baiano que se preza fala “porra”. A cada cinco palavrinhas, lá vem um “porra”, que não é palavrão.

Na Bahia, porra é tudo, menos a porra improperiamente dita pelo Brasil afora. Segundo o paraibaiano Renato Fechine, porra na Bahia é adjetivo, substantivo, interjeição, adjunto adnominal e advérbio de modo, de tempo, de lugar, de intensidade… enfim, da porra toda.

Quando se diz que “O cara mora na casa da porra”, se quer dizer que ele mora na casa do chapéu, longe pra caramba, na casa da desgraça.

Baiano que é baiano aguenta comer pelo menos três acarajés sem passar mal. Acarajé é hambúrguer de baiano.

Baiano que é baiano chama as amigas de “ordinárias” e até de “piriguete” e elas não se sentem ofendidas, pois sabem que é um tratamento carinhoso. Ivete Sangalo, por exemplo, não satisfeita com toda fama e toda grana, concedeu a si mesma o título de “periguete-mor” da Bahia.

Em Salvador é comum você olhar para sua amiga (seja ela pretinha, branquela, loira ou morena) e falar “ô, sua nigrinha” – e ela acha massa (o máximo). Baiano não admite cocó pro seu lado. Traduzindo: não gosta de cheiro mole. Entendeu não? Oxente, você tá precisando se matricular num curso de baianês.

Pegar um rango, bater um rango e filar a bóia significam a mesma coisa: almoçar, comer, matar a fome. E quando um baiano fala “Eu tô de rango” significa que tá com fome. É esquisito, mas é a nossa linguagem.

Baiano que é baiano não bebe – come água. Fica em águas. “Ontem Fulano estava em água dura”. Tradução: estava trêbado, pra lá de Maracangalha. Bebeu cuma-porra e chamou Hugo (ou seja, vomitou).

O baiano, quando chama um brother pra beber, fala: “Rumbora cumê água?” Em Salvador ninguém fala noitada nem balada, só fala “régui”. “Bora pu régui?”. Não importa se a música é axé, samba, pagode, MPB, rock ou forró – tudo é “régui”.

Todo baiano chama Graça de Gal, Wagner de Wal, Gilberto de Gil. Para meus amigos, parentes e aderentes, eu não sou Marcelo. Sou Macelo (sem “r”). E é assim que Sérgio é Sejo, terça-feira é têça-fêra; bar é bá e cerveja é ceveja.

Baiano que é baiano engole a letra d do gerúndio: caminhano e cantano e seguino o trio elétrico… Quando uma mulher chega, logo após ter tomado banho, é comum a gente dizer a ela: “Hum, chegou toda tomada banho”.

Baiano que é baiano sabe o significado da frase: “O cara tava mais enfeitado que jegue na Lavagem do Bonfim”. Ou seja, usava excessivo número de adereços e enfeites. O baiano de Salvador, sabendo ou não falar inglês, sabe que brown não é a forma carinhosa de Carlinhos Brown. Brown é adjetivo de pessoa brega-espalhafatosa-cafona: é o motorista que põe mil adesivos no carro; é o rapaz cheio de colares de prata e pulseiras.

Baiano que é baiano sabe que “lavar a jega” é se dar bem. É também pegar o boi.Todo baiano sabe que jante não tem nada a ver com o verbo jantar. Na Bahia, jante significa aro de pneu. “Rodar na jante” é o carro rodar com o pneu vazio ou furado. Na gíria masculina, rodar na jante transar sem camisinha.

Baiano que é baiano sabe o que é nestante = “nesse” + “instante”, ou seja, daqui a pouco. Paruano é no próximo ano. “Paruano sai milhó”, diz o dono do bloco de carnaval. Tem também o “parumês” e “prassemana”.

Só baiano sabe o que significa “de hoje a oito”. “Meu aniversário é de hoje a oito”, ou seja, é daqui a sete dias. Baiano que é baiano fala horas de relógio. “Fiquei duas horas de relógio esperando aquele filadaputa”. Nós falamos assim para enfatizar que foi um atraso da porra.

Em Salvador, se você convida alguém prum aniversário ou batizado de boneca, essa pessoa leva uma renca de amigos (renca = muitos, uma catrupia, muita gente). Baiano fala “na moral” em vez de “por favor”… “Pega isso aí pra mim, na moral”. E tem aquela frase infalível: “Fulano, você que tá em pé, pega aquilo ali pra mim”. Não é assim?

Baiano chama ônibus de humilhante. “Vou de humilhante”. Taxista é taquicêro. Baiano acha legal quando dizem que ele é “um pinico cheio”. Você não é pouca merda, não, é um pinico cheio. O baiano, quando tá indo embora, diz “tô chegando”. Ele não vai embora, se pica. Em Salvador, “se picar” não é se auto-molestar, é cair fora, ir embora.

“Ruma”, em Salvador, é um bocado de coisas. Uma ruma de papel, uma ruma de gente, uma ruma de bagulho. E ainda tem o verbo rumar. “Rumei-la porra nela”, ou seja, arremessou alguma coisa na pobre coitada.

Na Boa Terra, é comum você tratar um amigo, um colega ou um desconhecido como “pai”. Se for mulher, diz-se que é “mãe”. “Venha, pai”. “Venha, mãe”. Muitas letras de músicas baianas têm pai e mãe nesse sentido.

Também é comum tratar um desconhecido como “maluco”, mas é uma forma carinhosa, amistosa, sem maldade nenhuma. Quando se diz “A reunião não teve um pé de pessoa”, se quer dizer que a reunião não teve ninguém.

Só na Bahia é possível dois seres humanos travarem o seguinte diálogo:
– Colé a de mermo?
– É niúma.

Tradução:
– Tudo bem com você?
– Tudo bem.

Todo brasileiro acha que baiano fala a palavra “arretado”. Não tem esse ‘a’. Baiano fala é ‘retado’. Raul Seixas cantou uma música assim: “Não planto capim guiné pra boi abanar rabo/ Tô virado no diabo/ eu tô retado com você. Tá vendo tudo e fica aí parado/ Com cara de veado/ Que viu o caxinguelê”.

“Tô retado” significa tô zangado, tô puto da vida. Mas retado também exerce a função de superlativo: “É bonito que é retado” [ou seja, é muito bonito]. “O cara é retado de feio” [ou seja, é muito feio]. E, quando se diz “Ele é um cara retado”, significa dizer “Ele é muito gente boa”. Ô, retado!

Agora, vamos nos gabar: a Bahia é o único estado que começa com B – de Brasil. O mapa da Bahia é quase igual ao do Brasil. A Bahia faz divisa com oitos estados. Houve um baiano que era magro cumaporra e tinha o apelido de Gordurinha. Ele fez uma música que dizia assim: um baiano é uma coisa divertida; dois baianos, uma boa pedida; três baianos, uma conversa comprida; quatro baianos, um comício na avenida.

E ainda se diz também que: 1 baiano = um escritor famoso; 2 baianos = uma luta de capoeira; 3 baianos = um grupo de axé; 4 baianos = um terreiro de candomblé.

Todo baiano tem um pouco da sátira de Gregório de Matos (o boca de inferno), da poesia de Castro Alves, da malemolência de Gilberto Gil, do “marquetingue” de Duda e de Nizan, da esperteza de ACM e da candura de Irmã Dulce.

Todo baiano tem régua e compasso. Todo baiano tem um santo, uma ginga de corpo e um rei na barriga. Como diz uma música, todo baiano tem Deus no coração e o diabo no quadril.

* Marcelo Torres foi convidado pelo blog para postar um motivo pelo qual ama Salvador.

Veja o vídeo Guerra de Flanelinhas, da Mais Um Filmes:

motivo #185

This entry was written by carolangom and published on July 4, 2013 at 11:34 pm. It’s filed under Soteropolitanidades and tagged , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

3 thoughts on “4 de julho – jeito de falar soteropolitano

  1. Pingback: 31 de dezembro – admirar Salvador pela janela | 365 motivos para amar Salvador

  2. Alejandro Martinis on said:

    ¿ Qué esperanza tengo de aprender Portugués si cambia tanto desde Sao Paulo a Bahia? Muchas gracias por este post. Tengo que leerlo lentamente y aprender mucho.🙂

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: