365 motivos para amar Salvador

27 de agosto – Mercado das Flores

Por Carol Andrade*

Um dos dois quiosques no Lar go do Mocambinho (Foto: 365 Salvador)

Um dos dois quiosques no Lar go do Mocambinho (Foto: 365 Salvador)

São oito boxes de flores, divididos em dois grandes quiosques redondos no Largo do Mocambinho. Não tem quem passe nesta altura da Rua Carlos Gomes sem notar a exuberância das rosas, margaridas, lírios, antúrios, astromélias e plantas vendidas por ali. Aliás, tem sim. Tem muita gente que faz esse trajeto e mal se dá conta de como o Dois de Julho é tradicional quando o assunto é flor.

O carinho pelas flores foi herdado especialmente dos portugueses e franceses. Isso quem conta é o jornalista e escritor Nelson Cadena, no blog Memórias da Bahia. Ele disse que as flores estavam em toda a parte e em todos eventos da cidade no começo do século XX. Na década de 40, a Rua do Cabeça foi o primeiro endereço oficial a receber o Mercado das Flores. Na época, muito mais grandioso do que hoje é.

Depois migrou para o Largo Dois de Julho e dali foi parar no Mocambinho, no início dos anos 90, onde está até hoje. Dona Elenita contou que em meio a esta mudança de endereço já trabalha com as flores há 45 anos. Seu box, o número 7, é um dos poucos que funciona de domingo a domingo. A vizinha, Jucilene, preparava alguns arranjos, cortando o caule das plantas. Jucilene é mais nova no ramo, trabalha há apenas quatro anos no box do marido.

Seu Eduardo vende flores há mais de 40 anos, é casado há 50 e acredita no romantismo (Foto: 365 Salvador)

Seu Eduardo vende flores há mais de 40 anos, é casado há 50 e acredita no romantismo (Foto: 365 Salvador)

Tem um clima de concorrência no ar, mas as duas vizinhas garantiram que todo mundo se dá bem. Os fornecedores são os mesmos e as flores chegam de São Paulo, Espírito Santo, Vitória da Conquista e Maracás. Jucilene explicou que, por conta disso, os preços são praticamente os mesmos em todos os boxes. Mas cada um vive sua independência, com seu horário de funcionamento e sua clientela fiel.

Mais adiante, no outro quiosque, Dona Marta observava a vida em uma cadeira em frente ao seu box. É uma das mais novas entre os vendedores. Abre mais tarde que todos os outros: entre 8h30 e 9h. Mas é o vizinho, seu Eduardo, que me chama atenção.

Com 79 anos, estava elegantemente sentado e muito bem perfumado. Sério e desconfiado, não deu muita bola para as minhas primeiras dúvidas. Até que abriu um sorriso tímido quando perguntei se ele acredita em romantismo. “Claro que sim!”, me respondeu prontamente. “As mulheres devem ser tratadas com muito carinho, com muito amor”, completou. E foi naturalmente contando sobre sua vida. É casado há 50 anos e só brigou com a esposa uma única vez. “Ela me pegou no flagra, ficou muito chateada, chorou. Mas eu ouvi tudo calado porque ela tinha razão”.

O Mercado das flores conta com dois quiosques que abrigam oito lojinhas de flores no Largo do Mocambinho  (Foto: 365 Salvador)

O Mercado das flores conta com dois quiosques que abrigam oito lojinhas de flores no Largo do Mocambinho (Foto: 365 Salvador)

Disse ainda que a traição é um dos grandes motivos para a venda de flores. “Outro dia veio um aqui desesperado atrás de lírios. Ele tinha que chegar a tempo na faculdade da noiva. Ela descobriu que ele estava com outra. Eu pergunto: ‘meu filho, por que você fez isso?'”, disse em tom paternal. Perguntei se os homens são maioria entre os clientes, respondeu que é bem equilibrado. Parece que as mulheres gostam de enfeitar a casa, enquanto os homens tentam consertar os erros.

De uma forma ou de outra, a vida passa por ali naquele pequeno quadrilátero. Entre comércios, restaurantes, armarinhos, ambulantes, as não muito bem vindas moto-táxis, um ou outro carrinho de café, o engarrafamento e a sujeira. Mas pelo menos, temos as flores e as histórias!

* Sugestão de Lia Nascimento

+ infos:
Blog Memórias da Bahia: No tempo em que a Bahia gostava e admirava flores
motivo #239

This entry was written by carolangom and published on August 27, 2013 at 11:08 pm. It’s filed under compras, Soteropolitanidades and tagged , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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