365 motivos para amar Salvador

13 de setembro – Banca/sebo Ananda

Por Carol Andrade

Álvaro Abdon comanda a Banca Ananda há mais de 20 anos (Foto: 365 Salvador)

Álvaro Abdon, o Índio, comanda a Banca Ananda há mais de 20 anos e posa ao lado dos livros de arte, seus preferidos (Foto: 365 Salvador)

A Banca Ananda dá boas vindas para quem vai chegando no Canela e não é uma banca qualquer. Funciona como um mini sebo e abriga revistas, livros e até DVDs usados. Álvaro Abdon, conhecido como Índio, tem 48 anos, três filhos e é apaixonado por livros. “A banca já tem mais de 40 anos e eu já tenho mais de 20 anos aqui”, disse. E completou: “isso é amor, amo o que faço”. Nosso papo durou mais de uma hora e perdi a conta de quantos cumprimentos Índio recebeu. “Você poderia ser o prefeito da rua”, brinquei. “Trabalho aqui desde menino, vendia frutas e folhas e artigos de candomblé. Minha vida inteira aconteceu no Canela. Fiz muitos amigos”, explicou.

São muitas histórias para contar e tudo começa pelo nome da banca. “Eu tinha um sócio e ele namorava uma estudante da Escola de Belas Artes (EBA), Ananda. Quando pensei em comprar a banca, a inflação estava muito alta e Ananda me disse: ‘não se preocupe, vou pedir para minha vó uma ajuda espiritual’. Nunca conheci a vó dela, não sei se ela fez uma reza, mas consegui comprar a banca e fiz questão de colocar seu nome como uma homenagem pelo carinho”, contou. Índio contou que a média de preço varia por lá. Alguns gibis custam apenas um real, mas uma boa obra, especialmente de arte, chega a custar R$100 ou até mais.

Das histórias curiosas, ele lembra bem de uma que aconteceu há mais ou menos 15 anos. Índio tinha um cliente jovem que comprava muitas Playboys e quando chegou um exemplar clássico da Xuxa vendeu a revista por R$200 para o menino. No outro dia, a família inteira do garoto foi contestar na frente da sua banca. “Eu já tinha vendido tantas revistas para ele, na época, nem me importei se ele era menor de idade. Devolvi o dinheiro, claro, não queria confusão. Depois a vendi muito mais cara para um adulto e dei um ponto final”, disse rindo. Entre as obras mais desejadas, ele contou que João Ubaldo Ribeiro, José Saramago e Gabriel Garcia Márquez não costumam durar muito tempo no estoque.

A banca funciona como um mini sebo e vende revistas e livros usados (Foto: 365 Salvador)

A banca funciona como um mini sebo e vende revistas e livros usados (Foto: 365 Salvador)

Leva o negócio à moda antiga: nada de site, Facebook ou vendas online. “Tenho certeza que venderia muito bem pela internet, mas gosto disso aqui que estamos fazendo: conversar. Mal uso celular”, contou. Ele também é louco por ciências sociais e livros clássicos de arte. “Se duas pessoas chegam com livros para trocar ou vender, sendo que uma está com best-sellers tipo ‘não sei quantos tons de cinza’ e a outra está com livros de arte e filosofia, eu vou preferir fazer negócio com a segunda”, disse.

Bem próxima a EBA, a velha Banca Ananda tem entre seus clientes fiéis os universitários e os professores, mas também moradores da região. “E o garoto da Playboy de Xuxa continuou comprando na sua mão?”, perguntei. “Claro! Ele mora naquele prédio, ó. Hoje já é um homem feito”, sorriu. “A mãe dele apareceu tempos depois para dizer que o problema não foi ter vendido uma Playboy para um garoto, mas o dinheiro que cobrei”, riu.

Índio tem um sonho antigo: “adotar” um grupo de leitores, de preferência estudantes de escola pública, para disponibilizar seu acervo para consulta. “Já procurei associações, mas ninguém parece estar interessado. Eu queria que esse projeto fosse intermediado por alguma instituição. Queria fazer mais pelo social”, contou. E completou: “já falei tanto sobre isso, mas agora surgiu uma oportunidade. Uma menina veio aqui, precisava de um livro, mas não tinha dinheiro pra comprar. Ela me contou sua história e eu me comovi. Ela ainda não sabe, mas já adotei ela. Quando ela voltar, vou emprestar o livro e espero que ela não quebre minha confiança”, disse.

Ele também sonha em ter um sebo diferente dos que existem por aí. Imagina um espaço cultural, com palestra de diferentes pessoas toda semana. “Uma sexta-feira eu chamaria uma jornalista como você para falar sobre blog, em outro dia um juiz, em outro dia chamaria um gari para falar de invisibilidade social…”, fantasiou.

Índio gosta de filmes clássicos e troca alguns com seus clientes, também disse que aprendeu muito sobre diversos assuntos nesses anos todos de banca. Guarda uma bolsa preta com sua própria biblioteca particular. “Leio muito, mas também tiro dúvidas com vários clientes, converso, descubro as coisas. Também escrevi algumas reflexões, até dei para uma professora revisar”, contou. A gente torce pelo melhor!

+ infos:
Funcionamento: 6h30 às 20h

motivo #256

This entry was written by carolangom and published on September 13, 2013 at 11:47 pm. It’s filed under compras, Serviço and tagged , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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