365 motivos para amar Salvador

18 de setembro – farinha boa

Por Carol Andrade

A farinha da banca de Junior vem de Nazaré e custa R$7 o quilo, no Largo Dois de Julho (Foto: 365 Salvador)

A farinha da banca de Junior vem de Nazaré e custa R$7 o quilo, no Largo do Mocambinho (Foto: 365 Salvador)

Se você tem um parente que não mora em Salvador, mas é louco por comida baiana, certamente já precisou correr atrás de algumas encomendas culinárias pela cidade tipo acarajé, algumas carnes, camarão seco, pãozinho delícia e a velha e tradicional farinha. Levar quitutes na mala, pelo avião ou mesmo ônibus, não é nada prático, mas a gente faz tudo pela família e, principalmente, para os mais amados. Suspeito que a gente cede esses quilos de bagagem por um detalhe: poder desfrutar também, mesmo longe, dessa que é a mais cheirosa e colorida comida do país, com um requinte de comida da terra.

Nossa farinha é um dos “souvenires” mais queridos dos turistas. É verdade que quase sempre ela vem da vizinhança: Nazaré das Farinhas e Vale da Copioba, duas cidades do Recôncavo Baiano, mas ainda de Valença, Santo Antônio de Jesus e outras tantas. Aquelas cidades do Recôncavo são rainhas quase absolutas no reino da farinha de mandioca e produzem umas das mais maravilhosas do Nordeste. Junior tem uma banquinha no Largo do Mocambinho, no Dois de Julho, e vende o quilo da farinha por R$7. Ele disse que trabalha com a melhor farinha de todas: a que vem de Nazaré.

Já Seu Alberto, no Largo do Dois Julho tem 55 anos e trabalha a pelo menos 20 anos com farinhas e outros quitutes. Vende o quilo por R$6 e sua farinha vem de Santo Antônio de Jesus. Garantiu que o segredo do sucesso é trabalhar com a mesma farinha, sempre. Assim, fideliza a freguesia.

No Largo Dois de Julho, a farinha de Seu Alberto vem de Santo Antônio de Jesus e custa R$6, o quilo (Foto: 365 Salvador)

No Largo Dois de Julho, a farinha de Seu Alberto vem de Santo Antônio de Jesus e custa R$6, o quilo (Foto: 365 Salvador)

Finas, crocantes, branquinhas, amarelas, de copioba, de foguete, d’água, de guerra. Na Bahia, tem farinha para tudo que é gosto. Antes, é preciso ressaltar que esse quitute tipicamente brasileiro pode, sim, ser encontrado em todo o país. A farinha – combinação perfeita para o feijão e arroz – aparece de Norte a Sul, mas é no Nordeste que seu consumo é maior (e é aqui que temos a farinha de melhor qualidade).

Esta região detém a maior produção nacional de mandioca, com 37,5%, seguida pela Norte, com 27,6%, Sul, com 19,9%, Sudeste (8,9%) e Centro-Oeste (6,1%). A Bahia fica em segundo lugar no ranking – perde apenas para o Pará – mas é daqui que os turistas se acostumaram a levar farinha pra casa como “lembrancinha da terra”.

A farinha é tão importante para os baianos, e claro, para os soteropolitanos, que em fevereiro de 1858, uma revolta popular tomou conta das ruas da capital contra a falta da farinha e os preços abusivos do “alimento dos pobres”, como ficou conhecida. A manifestação foi inesperada, já que não era dia de feira e ainda era época de jejum – o dia caiu no segundo dia de quaresma -, mas as pessoas gritavam nas ruas: “carne sem osso e farinha sem caroço”.

A expressão batizou o protesto como A Revolta da Farinha. A manifestação aconteceu em um período conturbado na cidade e se misturou à luta por direitos políticos e ganhou atmosfera de defesa da cidadania, comprovando o espírito contestador que os soteropolitanos herdaram.

Desde o período colonial, a farinha é destaque na nossa culinária. A presença da mandioca foi citada, inclusive, em carta de Pero Vaz de Caminha, lá em 1500, para o rei de Portugal. O registro marcou a raiz como um dos alimentos dos nativos da terra, os índios. Ao longo dos anos, a farinha foi se incorporando aos nossos pratos. Como já falei antes, é difícil encontrar quem não goste de feijão, farinha e arroz, por exemplo.

Mas há quem curta a farinha com caruru, carnes com caldo, e até com massas (sim, tem gosto pra tudo!). Já a farofa – que pode ser a básica de manteiga ou de cenoura e ainda de couve, entre outras tantas – acompanha ovo, moquecas, salada vinagrete, frango assado, churrasco, entre outras várias combinações. A gente até podia entrar para o ranking das cidades mais farofeiras do Brasil, né?

+ infos:
Slow Food Brasil: Livro aborda a presença da farinha de mandioca na culinária desde o descobrimento do Brasil

motivo #261

This entry was written by carolangom and published on September 18, 2013 at 3:39 pm. It’s filed under Paladar and tagged , , , , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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