365 motivos para amar Salvador

30 de setembro – Acervo da Laje

Por Carol Andrade

A história do Acervo da Laje começou como uma pesquisa de José Eduardo Ferreira e foi fundado em 2011 (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

A história do Acervo da Laje começou como uma pesquisa de José Eduardo Ferreira e foi fundado em 2011 (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

No São João do Cabrito, Subúrbio Ferroviário de Salvador, uma casinha bem pequenina e simples guarda um acervo incrível de arte. São pinturas, quadros, máscaras, conchas, cerâmicas, sementes, madeira entalhada, azulejos, moedas antigas, pedaços de porta, todo tipo de memória. A ideia é abrigar o maior número possível de obras de artistas do Subúrbio dentro da própria região. “Isso não é um museu, nem pretende ser. A gente chama de Acervo da Laje”, contou o idealizador do projeto, professor e pesquisador, José Eduardo Ferreira.

O assunto é o acervo, o Subúrbio, os tantos artistas invisíveis da periferia que os soteropolitanos desconhecem e José Eduardo enche o espaço com um dos temas que mais ama, o Acervo da Laje, e também com sua gargalhada simpática. A história começou enquanto ele desenvolvia seu trabalho acadêmico sobre Subúrbio, com o fotógrafo Marco Illuminati, mas foi em 2011 que ele teve a ideia de garimpar as obras. “O objetivo é mostrar a produção artística do Subúrbio. Então a gente começou a catalogar e descobriu mais de 50 artistas daqui. Desses, muitos estavam morrendo e, por isso, fomos atrás das obras deles”, contou.

O amor pelo Acervo e a gargalhada de José Eduardo contagiam o pequeno espaço (Foto: Luana Amaral/ 365 Salvador)

O amor pelo Acervo e a gargalhada de José Eduardo contagiam o pequeno espaço (Foto: Luana Amaral/ 365 Salvador)

“Achei muitas obras no Rio de Janeiro e tem quadros que encontro em leilão, compro e trago para aqui. A ideia é ficar aqui. Como se fosse de volta para casa, uma coisa assim. E deixar que as pessoas visitem, né?”, contou o pesquisador. Lá estão obras de Almiro Borges, Perinho Santana e Nalva, Otávio Bahia, Ray Bahia, César, Deraldo Lima, Raimundo Lembrança, Indiano Carioca, Zaca Oliveira, entre outros tantos.

A primeira peça chegou no acervo em 2011. É uma máscara de madeira de Iemanjá, criada por Otávio Bahia, um artista de Fazenda Coutos, que morreu em 2010. “Não tinha me dado conta do acervo. Mas as pessoas começaram a visitar e eu comecei a comprar muitas obras, mas também a ganhar e achar muitas peças”, disse.

Das histórias curiosas do acervo, José Eduardo ainda contou sobre uma outra máscara de Otávio Bahia e também uma do filho do artista que estavam à venda em uma feirinha do bairro Campo Grande. Ele disse que estava pagando, com o dinheiro na mão, quando viu um homem atrás do vendedor, de frente pra ele, falando que iria rouba-lo.

Peça de Otávio Bahia que  quase foi roubada da mão de José Eduardo em uma das histórias curiosas que ele contou ao blog (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

Peça de Otávio Bahia que quase foi roubada da mão de José Eduardo em uma das histórias curiosas que ele contou ao blog (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

“Eu perguntei ao vendedor porque aquele cara tava me olhando e o vendedor disse para mim que o cara ia me assaltar. Foi terrível”, contou. “Assim que o cara embalou as obras, eu coloquei debaixo do braço e saí correndo para o módulo policial. De lá peguei um táxi e voltei para cá”, completou. A história teve final feliz, como muitas outras obras que José Eduardo encontrou perdidas pela cidade.

“No Subúrbio, muita obra de arte é jogada fora. Tem gente que não valoriza. É a cultura do descartável. A periferia não lida muito bem com isso, o que está novo é sempre melhor do que é velho. Muito do que tem aqui foi encontrado no lixo”, disse o pesquisador. “O negócio é cuidar. Tinha que ter um espaço assim para ter memória. A memória é muito importante para desenvolver projetos de vida das pessoas, você precisa ter uma raiz, uma base”, completou.

Com o Acervo da Laje e com seus projetos (atualmente desenvolve uma oficina de fotografias para jovens do Subúrbio, ao lado da também pesquisadora Marcella Hausen) ele tenta transformar um pouco dessa tal cultura do descartável nos moradores da região. “Três dias da semana eu fico aqui recebendo pessoas. São escolas, projetos, estudantes. Recebo todo mundo aqui. É uma estrutura pequena, todo mundo pode tocar, mexer, depois a gente senta para conversar. Então não é um museu. É um acervo de memória, está vivo”, completou.

A história de José Eduardo também comprova um pouco dessa transformação. De família simples, teve uma professora daquelas que mudam as nossas vidas, sabe? Ele virou uma espécie de assistente dela e redigindo muitos trabalhos, acabou se envolvendo com as palavras e tomou gosto. Foi assim que começou uma carreira acadêmica da qual não pretende terminar tão cedo.

Algumas peças do Acervo (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

Algumas peças do Acervo (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

Hoje estuda a beleza em contrapartida da violência, no Programa Nacional de Pós-doutorado da Ufba. “Estou pesquisando o impacto que a beleza tem no desenvolvimento de pessoas em situação de risco. A ideia é trabalhar isso naquela passagem dos 11 até os 16 anos, já que nessa idade pode ser que os jovens tenham uma percepção diferente de vida”, explicou.

Mas ressalta que o que ele faz não é museu, nem ONG, é fruto da sua pesquisa e estudo. “É para ter um espaço de memória. Pense que são 600 mil pessoas morando no Subúrbio e não existe um espaço para ver e fruir arte. Não existe”, contou cabisbaixo. “Tem muita gente que nasce e morre sem nunca ter visto uma obra original. Que só viu  cópias durante toda a vida”, completou. A impressão é de que o Acervo da Laje é mais do que os estudos e pesquisas de José Eduardo, mas também vem de uma urgência de deste lugar. O espaço, no entanto, já dá sinais de superlotação e as próprias obras estão expostas a fungos e infiltrações, salitre, sem muita infraestrutura.

Um dos ambientes do Acervo da Laje (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

Um dos ambientes do Acervo da Laje (Foto: Luana Amaral/365 Salvador)

Quase não é possível ver parede, são quadros, máscaras, peixes de alumínio, fotografias emolduradas, disputando cada espaço do ambiente. Sem apoio financeiro de nenhuma organização, nem do governo, José Eduardo olha com carinho para o que fundou e parece imensamente agradecido aos amigos e parceiros que ajudaram a continuar com o Acervo da Laje.

Pé no chão, acredita que logo terá que migrar o acervo para outro lugar, mas quer fazer tudo bem pensado. “Tenho medo dessas coisas muito grandes, megalomaníacas. Daqui a pouco você cria uma estrutura muito grande e termina falindo, essa não é a ideia”, confessou.

“E você tem uma obra preferida?”, perguntei. “Aaaai, a última que chega”, disse aos risos. “Essa última foi um presente para ficar aqui. Eu gosto disso. A pessoa diz: isso aqui não é para você, é para o Acervo. Virou quase uma entidade. Então você sabe que as pessoas precisam nos visitar aqui e ver”, sorriu.

+ infos:
PACC – UFRJ: Acervo da Laje
Blog: A Beleza do Subúrbio

Este post é o motivo 273º, entre os 365 motivos para amar Salvador que o blog se desafiou a registrar ao longo de 2013.

This entry was written by carolangom and published on September 30, 2013 at 9:11 pm. It’s filed under esconderijo, instituição, passeio, Soteropolitanidades and tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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