365 motivos para amar Salvador

23 de outubro – a arte de Ray Bahia

Por Carol Andrade

O artista Ray Bahia trabalha com alumínio e serra manual (Foto: Marcella Hausen/365 Salvador)

O artista Ray Bahia trabalha com alumínio e serra manual (Foto: Marcella Hausen/365 Salvador)

Um dos detalhes que mais chamam atenção quando a gente conhece Ray Bahia é a sua organização. “Eu não gosto de bagunça, nada fora do lugar”, explicou.  Suas peças são feitas de alumínio martelado, algumas com detalhes em cobre. Sua especialidade é o fundo do mar e até a cor dos peixes é o mais próximo possível da realidade. São obras de um artista perfeccionista.

Ele mora em uma casa simples em Periperi, no Subúrbio Ferroviário, e hoje trabalha sozinho, mas há uns oito ou nove anos atrás tinha uma equipe de cinco pessoas. Na época, essa organização era obrigatória por conta do pequeno espaço, mas o artista ainda conserva os mesmos hábitos. No seu atelier, a impressão é que nada está fora do lugar.

Ray Bahia explicando a arte de cinzelar (Foto: Marcella Hausen/365 Salvador)

Ray Bahia explicando a arte de cinzelar (Foto: Marcella Hausen/365 Salvador)

Tesoura, serra, cera, martelo e outros instrumentos adaptados: Ray gosta mesmo do trabalho manual. “Me perguntam porque não uso serra elétrica, mas eu já estou tão acostumado com essa”, justificou. Depois de serrar a peça, o artista começa a esculpir, ou melhor, cinzelar, a obra.

Ele contou que começou a desenvolver seus próprios cinzéis, com faca, vários tipos de martelo, martelo de furar cinto de couro e cela de cavalo. “Cinzelar é dar o baixo relevo, é como se bordasse a chapa do metal”, disse. Assim, ele vai dando vida ao seu universo marítimo.

A história de Ray com os metais começou quando ele era um menino. Na época, muito novo, morava com a família em Alagados. Aprendeu a desenhar com a artista plástica Gina Phyllis, dentro do projeto Voluntários da Paz, que trouxe alguns profissionais estrangeiros para a região.

“Eram uns americanos que faziam um trabalham artístico com os jovens dos Alagados. Mas eu era muito garoto, quem participou mesmo foi a minha irmã. Eu ficava olhando. Eles faziam fundição, usavam maçarico, lançador, era um processo caro que eu não tinha condição”, contou.

Alguns peixes em processo de produção e outras fôrmas de alumínio esperando a vez de virar peixe (Foto: Divulgação)

Alguns peixes em processo de produção e outras fôrmas de alumínio esperando a vez de virar peixe (Foto: Divulgação)

O grupo criava máscaras inspiradas na cultura do Cambodja, algumas ao estilo das japonesas e um pouco das africanas. Mas o trabalho era feito à fundição, o grupo derretia o cobre e produzia as peças. “Aí comecei a fazer o meu próprio trabalho. Comecei a estudar a história da arte e percebi que tudo era feito à mão: moedas, taças, tudo era bordado”, completou. Ray entendeu que era possível criar seu próprio estilo e sua própria arte com os materiais que tinha condições de usar.

Ao longo da sua vida artística, Ray já trabalhou com couro e madeira, mas a paixão é mesmo o trabalho com os metais. “Já fiz vários painéis, usando diversos metais como inox, cobre, latão, bronze. Gosto de metal, gosto de ver a diferença de um para o outro”, disse. O artista também já produziu máscaras impressionantes. Na sua casa, três delas embelezam as paredes. São máscaras enormes e cheias de detalhes. Ele contou que um pequeno errinho pode estragar todo o trabalho.

Detalhes impressionantes de uma das máscaras criadas por Ray Bahia (Foto: Marcella Hausen/365 Salvador)

Detalhes impressionantes de uma das máscaras criadas por Ray Bahia (Foto: Marcella Hausen/365 Salvador)

As peças de Ray já foram parar na França, Alemanha, Estados Unidos, Japão, Canadá, entre outros países. Das histórias inusitadas, ele contou que um cliente encomendou um marlim azul de quase dois metros e meio para a casa de praia e a mulher, que o acompanhava, não concordou com a aquisição. Mas logo depois mudou de ideia.

“Ela achou o peixe grande demais e reclamou do valor. Mas tudo bem, fiz a peça. Dois anos depois encontrei o casal novamente e ele me disse que a mulher se apegou tanto ao peixe, que quando um cara chegou para pintar a casa e tirou tudo da parede, ela ficou desesperada achando que alguém tinha roubado justamente o marlim”, contou rindo.

Ray explicou que um simples errinho, como uma materlada muito forte, pode acabar com todo o trabalho (Foto: 365 Salvador)

Ray explicou que um simples errinho, como uma materlada muito forte, pode acabar com todo o trabalho (Foto: 365 Salvador)

Ao conhecer o atelier do artista e conversar mesmo que pouco com ele, não tem nem como ter dúvida: é no fundo do mar que está a paixão do artista. São muitos livros, revistas, pesquisas de peixes para que as obras fiquem perfeitas. “Você não usar internet?”, perguntei. “Muito pouco. Gosto mesmo dos livros, eles são muito importantes para o meu trabalho”, contou.

O tamanho, as escamas, as cores que ganham forma no alumínio. São diversas espécies, de peixe-lua à vermelho, de atum a robalo, de garoupa a xaréu. E Ray, como bom entendedor do universo marinho, também garante que é bom pescador.

+ infos:
A Beleza do Subúrbio
Ray Bahia: Blog

motivo #296

This entry was written by carolangom and published on October 23, 2013 at 12:17 am. It’s filed under arte, personagens, Soteropolitanidades and tagged , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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