365 motivos para amar Salvador

4 de novembro – Curvas

Por Iuri Barreto*

A Praia da Paciência, no Rio Vermelho, em suas linhas sinuosas vista por outro ângulo (Foto: Rodrigo Lopes)

A Praia da Paciência, no Rio Vermelho, em suas linhas sinuosas vista por outro ângulo (Foto: Rodrigo Lopes)

Outro dia um amigo meu me disse que nenhuma outra cidade no Brasil tinha tanta curva quanto Salvador. Exageros à parte, a afirmação me fez refletir, e eu cheguei à conclusão de que realmente, para o bem e para o mal, nossa cidade não é uma terra de linhas retas.

Para o mal, porque trocando em miúdos, isso traduz um quê da falta de organização que parece ter ditado a evolução urbana em Salvador. Roda-se muito para sair de um lugar e chegar a outro. Bairros vizinhos podem ser mais distantes do que se imagina. E aquele prédio da Tancredo Neves que você está vendo ali, quase ao toque da sua mão na Paulo VI, na verdade está cercado de ruas sem saída (uma prática comum por aqui), e precisará de uma epopeia homérica para ser alcançado, o que irá exigir que o herói percorra toda a Alameda das Espatódeas, vire aqui, vire ali, dê uma pirueta, um duplo-twist-carpado, e que ainda reze para não encontrar engarrafamento.

Tudo porque ninguém, sabe-se lá o motivo, resolveu construir ali uma linha reta. A impressão que ocorre para quem chega de avião, é que Salvador é um emaranhado de ruas confusas, de quarteirões distorcidos, de vales serpenteantes, e de prédios/casas que parecem ter sido dispostos aleatoriamente pelo relevo da cidade. E em parte, essa impressão não é de todo falsa.

Ora, a capital da Bahia (ou melhor dizendo, do Brasil colonial) foi planejada para ser uma fortaleza, e facilidade nos acessos e praticidade nos deslocamentos em Salvador era o que os portugueses menos desejavam (lógico, o que é fácil pra mim também é fácil para o meu inimigo). Assim, nada mais coerente que, quatrocentos anos depois de se instalar na colina da Cidade Alta, e se ramificar para as áreas mais afastadas, Salvador mantivesse essa lógica de crescimento.Olhos pessimistas enxergariam isso apenas nos moldes do parágrafo anterior, e veriam desordem. Olhos otimistas, por outro lado, extrairiam beleza. Beleza sim, porque não?

Curvas da Avenida Contorno, debruçada sobre a Baía de Todos os Santos e amparada pela Gamboa (Foto: Reprodução/Correio 24h)

Curvas da Avenida Contorno, debruçada sobre a Baía de Todos os Santos e amparada pela Gamboa (Foto: Reprodução/Correio 24h)

As infinitas curvas de Salvador, se pelo lado negativo transmitem a falta de pragmatismo no trânsito, pelo lado bom revelam que a cidade, ao contrário de tantas outras que vemos por aí (cito por exemplo o Rio de Janeiro, famoso pelo desmonte de vários morros), procurou não se afastar do traçado geográfico único que a natureza lhe deu. Claro que durante a sua urbanização existiram aterramentos, assoreamento de rios, e devastação de áreas verdes, mas em sua essência, e salvo algumas exceções, Salvador permaneceu praticamente a mesma.

E justamente em decorrência dessa sua capacidade ímpar de não tentar argumentar com a natureza, é que Salvador nos presenteou com suas curvas de tirar o fôlego. No litoral, por exemplo – recortado e segmentado como em poucas cidades brasileiras -, multiplicam-se ruas e avenidas que de tão surpreendentes, já deveriam ter sido consideradas pontos turísticos. Quem não se emociona com a curva da Avenida Oceânica que sai de Ondina, entra na Barra, passa pelo Cristo, e que descortina aquela visão de cinema do Farol, a imponente sentinela da Baía e do Atlântico? Qual turista não fica embasbacado quando o Vale do Canela passa por baixo do Campo Grande, e depois de uma curvinha de nada, samba na cara do mundo com aquela vista arrebatadora da Baía de Todos os Santos?

Que soteropolitano não se enche de orgulho ao chegar no Rio Vermelho, e depois da Praia da Paciência (e claro, depois de uma curva), avistar quase metade do bairro na sua frente? Quem é que não gosta de descer a Ladeira da Barra, e por uma fração de um minuto que seja, ser abençoado por aquele trecho do Yacht Club (o único ponto da via que não esconde o mar, diga-se de passagem)?

Uma das curvas mais famosas da cidade, na descida do Morro do Cristo, na Av. Oceânica (Foto: Rodrigo Lopes)

Uma das curvas mais famosas da cidade, na descida do Morro do Cristo, na Av. Oceânica (Foto: Rodrigo Lopes)

Vários outros exemplos ainda poderiam ser lembrados, como a Ladeira do Cacau (em São Caetano), o camarote para se contemplar todo o tamanho da Península de Itapagipe; o Dique do Tororó, com as suas reentrâncias e o zigue-zague de quem se desafia a percorrer o seu entorno (brindado com a recompensa da visão dos orixás de Tati Moreno e da Arena Fonte Nova); e a ladeira de quem desce o Morro do Conselho, no Rio Vermelho – em particular, a minha curva preferida.

Impossível não sentir vontade de se demorar por alguns minutos (ou encostar o carro, no caso dos motorizados) e admirar a dimensão daquela imagem que se estende do Largo da Mariquita até o Farol da Barra. Um daqueles raríssimos momentos em Salvador no qual você para, olha, e pensa que tudo se encaixa e não há nada fora de lugar.

A reação típica provocada pelas curvas da cidade.

* Iuri Barreto comanda a página de Facebook Guia de Sobrevivência do Soteropobretano e foi convidado para postar um motivo pelo qual ama Salvador.

This entry was written by carolangom and published on November 4, 2013 at 11:16 pm. It’s filed under arquitetura, vista and tagged , , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

7 thoughts on “4 de novembro – Curvas

  1. Não tinha reparado que os pontos que mais gosto de admirar chegam depois das curvas. Pra mim, sempre vieram precedidos por ansiedade, seguida da ajeitadinha do corpo e da concentração total para captar o breve momento em que passo pelo Morro do Cristo, Ladeira da Barra ou pela Contorno. Se estou dirigindo, claro, fica mais sem graça, pq é preciso alternar olhadelas pro mar e pro trânsito. Enfim, adorei o post!🙂

  2. Que texto lindo! Como você escreve bem! Mostra toda a sua paixão pela nossa cidade, da qual eu também compartilho. Parabéns!

  3. Lara Pena on said:

    Que lindo esse texto! Nunca tinha me dado conta de todas essas curvas… Vou olhar nossa cidade com novos olhos.

  4. Ótimo texto. Representa bem o que sinto quando passo por esses lugares.
    Sempre gostei de pegar um Campo Grande R2 na Pituba em direção à Cardeal da Silva (apesar de poder encurtar o caminho com o R1) para curtir a orla entre o Rio Vermelho e Ladeira da Barra. Agora, com as obras de revitalização da orla, perdi parte importante desse percurso. Espero que por pouco tempo.

  5. Maria Auxiliadora Costa on said:

    Delícia de texto. Ajoelhei de amores, mais ainda, por essa velha Salvador.

  6. Pingback: 31 de dezembro – admirar Salvador pela janela | 365 motivos para amar Salvador

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