365 motivos para amar Salvador

3 de dezembro – Abará

Por Carol Andrade

Cozido, o abará merece destaque entre as nossas iguarias (Foto: Reprodução/Rosilda Cruz)

Cozido, o abará merece destaque entre as nossas iguarias (Foto: Reprodução/Rosilda Cruz)

Eu vou te contar uma experiência que tive recentemente conversando com um paulistano. Estava falando do blog e comentei sobre um abará. Sem a menor vergonha, ele me perguntou: “O quê que é abará?”. Me dei conta que boa parte do Brasil não conhece, nem nunca ouviu falar sobre essa maravilha. Fiquei chocada. Suspeito que isso é culpa do seu irmão mais galã e mais famoso: o acarajé, que acabou ofuscando todo o encanto do bichinho.

Acabei traduzindo da forma mais óbvia: “é tipo um acarajé, mas é cozido”. Com isso, reafirmei o preconceito de sempre. Que o acarajé é a versão suculenta, enquanto o abará é a iguaria sem graça e cozida da cidade. “É doce?”, ele me perguntou. Comecei a achar essa história divertida, embora triste. “Como assim é doce? Claro que não! É salgado”, respondi sem paciência como se estivesse falando com um doido de pedra. Depois, mais calma, tentei convencê-lo sobre o momento único de apreciar um abará, mas à esta altura ela já havia se convencido que preferia acarajé de qualquer jeito.

A briga acarajé x abará é antiga e movimenta o tabuleiro da baiana. Há quem prefira um, há quem prefira outro e tem aquele, o verdadeiro soteropolitano, que só fica feliz se comer um de cada. Mas por aqui, pelo menos neste texto, o abará vai ser o protagonista. Só que mesmo em destaque, não dá para negar que o abará é a versão mais saudável do acarajé. E, embora o sabor, a textura e o visual sejam completamente diferentes, trata-se da mesma receita. A única coisa que muda é a finalização. Enquanto o acarajé é frito, o abará é cozido. Mas lá estão na massa os mesmos temperos, o mesmo feijão fradinho, o mesmo dendê.

Enrolado em folha de bananeira, com textura de massa, que pode variar entre um ponto mais mole ou mais duro (lá ele!), o abará é daquelas delícias da cidade que merecem nossa atenção. Geralmente amarelinho, é dos que conquistam nosso coração em uma mordida. São vendidos no tabuleiro da baiana com ou sem recheio. Dá para encher o abará com tudo que tem direito, mas os grandes admiradores da iguaria garantem que um abará puro pode ser a melhor opção.Para não haver problema, a dica é se jogar no pratinho, com pedacinhos cortados. Assim, dá para combinar com camarão, salada, vatapá, caruru ou pimenta.

Lá em maio a gente falou de uma figura famosa nas bandas do Imbuí, o Abará do Original, que misturou criatividade à tradição. Suspeito que um dos detalhes mais interessantes do abará seja a possibilidade de criar novas versões do mesmo bolinho. Com o acarajé, por exemplo, isso não existe. Massa de ervas finas? Bacalhau? Atum? Tudo parece um pouco estranho, mas faz sucesso com o Original.

Para quem curte um clássico, baianas espalhadas por toda cidade vendem esses bolinhos amarelos, cozidos e nada sem graça. O valor? O mesmo que o acarajé. A média é R$5 sem e R$6 com camarão. Eu sei, não tem o menor sentido eu explicar o que é e por que o abará é tão bom. É tão parte da nossa cultura, da nossa gastronomia, que a gente não se dá conta o quanto a gente é sortudo por poder escolher entre acarajé e abará.

motivo #337

This entry was written by carolangom and published on December 3, 2013 at 3:26 am. It’s filed under Paladar and tagged , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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