365 motivos para amar Salvador

10 de dezembro – Mercado Modelo

Por Carol Andrade

Hoje, principal centro de compras para turistas, o Mercado Modelo foi importante na formação cultural e social de Salvador (Foto: Jotafreitas/Bahiatursa)

Hoje principal centro de compras para turistas, o Mercado Modelo foi importante na formação cultural e social da cidade (Foto: Jotafreitas/Bahiatursa)

O Mercado Modelo foi se transformando naturalmente no maior centro de compras para turistas em Salvador. E lugar que tem muito turista geralmente afasta quem é da terra. Primeiro por conta dos preços mais altos e segundo por causa do burburinho turístico chato. Mas o Mercado Modelo guarda uma história tão particular e faz tão parte da nossa memória que não tem como passar batido. Então é bom admitir de uma vez que não, a gente não frequenta como deveria, mas isso não quer dizer que a gente não tem carinho por esse prédio amarelinho.

Pelo menos no meu caso, o Mercado Modelo faz parte das lembranças de criança, quando a escola organizava aquelas excursões pela cidade. E um dos momentos mais marcantes foi descobrir o subsolo sombrio deste lugar. Entre as lendas mais famosas a que mais apavorava todas as crianças era que ali, naquela escuridão e umidade, um comércio ilegal de negros escravizados acontecia. Mas a história verdadeira diz que os túneis sustentados por arcadas, redescobertos na última reforma foram construídos para armazenar vinhos e outras mercadorias que precisavam de umidade.

As catacumbas do Mercado Modelo (Foto: Reprodução/Ronaldo Mourão/Flickr)

As catacumbas do Mercado Modelo (Foto: Reprodução/Ronaldo Mourão/Flickr)

Cheias de lendas, as catacumbas do Mercado Modelo estão abertas à visitação e funcionam abaixo do nível do mar, por isso sempre estão alagadas de água. Mas já aviso aos claustrofóbicos que o lugar é sufocante e bem obscuro.

E só de imaginar a lenda do comércio de escravos já bate uma angústia da pesada. De qualquer modo, vale a pena visitar esse que é um dos lugares mais estranhos de Salvador. Lá em cima, no ambiente normal do mercado, mais de 260 lojinhas dividem espaço comercializando todo tipo de artesanato da terra (e, tudo bem, muitos que nem daqui são). Berimbau, baianinhas, ímãs de geladeira, bolsas de palha, chapéus, cangas e saídas de praia são alguns dos souvenirs vendidos por lá.

Se é um lugar interessante para visitar? É, mas depende do seu objetivo. Algumas lojas realmente vendem coisas preciosas feitas por artistas locais e que devem ser valorizadas. Como as máscaras de Otávio Bahia (falei dele no post sobre o Acervo da Laje) que ocasionalmente podem ser encontradas lá ou os peixes de Ray Bahia, outro artista do Subúrbio. Assim como as principais capitais do país abrigam seus mercados municipais, mercados centrais ou simplesmente mercadões, dá até para sentir um orgulho de dizer que o nosso é conhecido como um dos maiores do Brasil.

Mas a sugestão é encarar o Mercado Modelo como um passeio mais histórico do que consumista. E se existe um detalhe marcante na biografia desse mercado é a série de incêndios que ele sofreu. O primeiro aconteceu ainda em 1917. O segundo, em 1922, ganhou proporções muito maiores e causou um prejuízo imenso e incalculável. Depois de recuperado, o mercado foi naturalmente se transformando em um dos maiores centros de abastecimento de Salvador. De cachaça a carne, de pimenta a farinha, tinha de tudo por lá. Mas além do comércio, outros serviços como barbeiros, restaurantes, casas de jogos e lojas de confecções davam uma rotina ao melhor estilo de shopping center ao Mercado Modelo.

Uma das figuras mais simbólicas do Mercado Modelo foi Camafeu de Oxossi (Foto: Reprodução)

Uma das figuras mais simbólicas do Mercado Modelo foi Camafeu de Oxossi (Foto: Reprodução)

Não dá para explicar a importância desse lugar para a formação cultural e social da cidade. Era um organismo vivo, de circulação de todo tipo de pessoa, entre o mercado e sua famosa rampa, a Rampa do Mercado Modelo, fotografada diversas vezes por Pierre Verger e retratada na obra de Jorge Amado.

O escritor baiano também se apropriou de uma das figuras mais simbólicas que já existiu naquele mercado: Ápio Patrocínio da Conceição, mais conhecido como Camafeu de Oxossi, capoeirista, músico, Obá de Xangô do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. Camafeu com sua sabedoria e espírito farrista ganhou vida nos livros de Jorge Amado, mas existiu de verdade e comprou sua primeira barraca por volta de 1945 no mercado.

Uma tradição que vive até hoje é o restaurante de Maria de São Pedro, que reza lenda ser a pioneira no quesito culinária baiana. O restaurante que começou na década de 20 na Ladeira da Água Brusca se mudou para o novo endereço em 1943 e continua vivo até hoje no segundo piso do lugar. No mesmo ano, outro incêndio abateu o mercado. Mas o pior deles aconteceu em 1969, deixando o prédio em ruínas e escombros.

Foi o seu fim, afinal, dessa tragédia, o prédio precisou ser reconstruído e ganhou sua nova versão em outro local, o que a gente conhece hoje. No lugar do antigo prédio, uma obra de Mario Cravo Junior foi encomendada pela prefeitura e chamada de ‘Fonte da Rampa do Mercado’. Desde então, a antiga vida cultural, artística e social do Mercado deu lugar a um centro voltado quase que exclusivamente para turistas. Mas como eu disse antes, não tem como não ter carinho por um lugar tão importante como este.

+ infos:
Bahia.com.br: Mercado Modelo
Portal Mercado Modelo: História Completa do Mercado Modelo
Mercado Modelo Bahia

motivo

This entry was written by carolangom and published on December 10, 2013 at 1:24 am. It’s filed under arquitetura, compras, Soteropolitanidades and tagged , , , , , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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